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Ambiente: Cabo Verde posiciona-se para abraçar a economia azul

Mas o que significa afinal a Economia Azul, que veio deitar um pouco por terra o conceito da Economia Verde, que esteve em voga nas últimas décadas?

À semelhança de vários países do mundo que se têm mostrado preocupados com a sustentabilidade do planeta terra e dos recursos disponíveis para a sobrevivência da própria humanidade, também Cabo Verde se tem posicionado para abraçar a Economia Azul.

O arquipélago já assinou a “Carta Compromisso a favor do Crescimento Azul”, e conta com o apoio da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a elaboração de um plano de investimento, a favor da Economia Azul, e do respectivo programa de apoio para a essa ousada transição económica.

Publicada no Boletim Oficial 25/11/2015, nº 73, a “Carta Compromisso a favor do Crescimento Azul” marcou um importante passo para que Cabo Verde se juntasse ao grupo dos países amigos da chamada Economia Azul e defensores da sustentabilidade do planeta terra, dos seus recursos e ecossistemas naturais.

Mas, o que significa afinal a Economia Azul, que veio deitar um pouco por terra o conceito da Economia Verde, que esteve em voga nas últimas décadas? O conceito de Economia Azul foi desenvolvido pelo economista belga Gunter Pauli, fundador da Zeri (Zero Emission Research and Initiatives) e chegou a ser apresentado e debatido na agenda do Rio+20 – Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.

Na prática, Gunter defende que é possível dar resposta às necessidades da população, da sociedade e dos países, em geral, através da exploração dos ecossistemas e recursos naturais locais, que cada comunidade, e cada país, têm à sua disposição. No fundo, enquanto a Economia Verde é alimentada, entre outras coisas, mais pela necessidade de investimento financeiro, resultando em produtos de consumo até mais caros para a população como, por exemplo, como acontece os produtos “Bio”, a Azul coloca a inovação no centro da estratégia sustentável para esse aproveitamento dos sistemas naturais. O desafio, como defendem os especialistas da área, reside no “uso inteligente” e aproveitamento total dos recursos naturais, e no funcionamento pleno e sustentável dos ecossistemas, sem os alterar ou danificar.

Sem desperdícios

O exemplo que Gunter dá do aproveitamento da produção de café, que tem corrido o mundo e é uma das formas mais simples de explicar o que pretende com esse conceito de Economia Azul. A teoria do empresário é que dos “dejectos” da produção de café podemos cultivar cogumelos de qualidade nutricional superior, e que esses produtores, em vez de deitarem fora esses “dejectos” poderiam “quadruplicar o lucro” com a sua reutilização.

“Quando bebemos um café, utilizamos só 0,2% da biomassa das plantas usadas. Os materiais descartados podem servir para fazer com que cresçam fungos de grande qualidade: uma reconversão das plantações de café em 45 países criaria 50 milhões de postos de trabalho. Processos semelhantes podem ser idealizados para o açúcar de cana, que atualmente só se utiliza 17% do seu potencial, e para as árvores que são transformadas em papel, com um desperdício de 70%. O velho trabalho que produz mais dejetos do que objetos úteis deve ser substituído por uma biorrefinaria capaz, por exemplo, de extrair da celulose todos os componentes, da lignina aos lipídios: desse modo, podem-se substituir os polímeros derivados do petróleo”, perspectivava já Gunter, em 2010, em entrevista ao site Rumo Sustentável.

Este exemplos, entre tantas outras propostas, que dá a conhecer no seu livro “Blue Economy” (Economia Azul). Um conjunto de 100 ideias inovadoras que na sua óptica não só beneficiam o meio ambiente, mas também satisfazem as necessidades básicas do ser humano, por exemplo, em termos de emprego e alimentação.

Mas, muito se tem escrito, falado e especulado, sobre as oportunidade que os países atlânticos devem aproveitar para potenciar a economia azul através da rentabilização dos recursos marítimos e marinhos. Na Europa, segundos dados da própria UE, a Economia Azul já gera 5,4 milhões de postos de trabalho e um valor acrescentado bruto de quase 500 mil milhões de euros por ano, havendo ainda espaço e oportunidades para crescer muito mais.

Cabo Verde engajado

Juvino Vieira, director-geral dos recursos marinhos de Cabo Verde garante que o país está a trilhar o seu caminho e que tem vindo a trabalhar e a agregar, de forma integrada, todos os sectores que “concorrem” para o crescimento e o desenvolvimento sustentável da Economia Azul no país.

“Temos as áreas das pescas e as áreas marítimas no centro, mas também temos outros sectores que estão ligados ao mar. Refiro-me, por exemplo, ao turismo, ao transporte marítimo, às infraestruturas de apoio às pescas, às indústrias de transformação e às unidades de agregação de valor aos produtos das pescas. O que se quer, é que todos esses sectores, de uma forma integrada, possam, todos juntos, promover o desenvolvimento da Economia Azul, com o mínimo de impacto negativo possível no ecossistema marinho, nas zonas costeiras e com o máximo de aproveitamento possível das pessoas que estão ligada a essas áreas”, expõe Juvino Vieira.

Juvino dá como exemplo a questão da contribuição, por exemplo, do sector da pesca no Turismo. “É preciso analisar a política para o turismo, que é o motor da nossa economia”. E questiona: “Então, o que é que a Pesca, e os outros sectores ligados à ela contribuem para o turismo e vice versa?”. A resposta parece simples: “Trabalhar de forma articulada”.

Na óptica desse responsável, a mesma lógica deve ser seguida para o sector do Transportes acoplado à Pesca. “O transporte, por exemplo, dos produtos das pescas, do pescado, seja fresco ou congelado, é preciso termos um olhar global do sector dos transportes, do impacto que esse sector tem no transporte dos alimentos, nesse caso, do pescado, e ver o que e como é que se pode complementar”.

Mas, como esclarece, para termos “todo” esse desenvolvimento também é preciso atentar nas infraestruturas da pesca. “Os portos de pesca, as condições que existem, são as ideais? Que melhorias são precisas? Qual é o tempo necessário, e como introduzir essas melhorias, tendo em conta o objectivo que se quer, que é a criação de mais empregos, a melhoria das condições de vida das pessoas?”.

Esse trabalho deve ser “integrado” para que se alcance o tal “desenvolvimento sócio-económico de forma sustentável”, mas, como alerta, “é preciso ter o cuidado para não se degradar o ambiente marinho, nem as zonas costeiras”. Aqui surge o compromisso estabelecido “entre o crescimento, o desenvolvimento e a sustentabilidade, na lógica do desenvolvimento, mas também da conservação e protecção das espécies e das zonas costeiras e dos ecossistemas marinhos”.

Cabo Verde quer assim promover o crescimento e desenvolvimento da Economia Azul, por forma a criar todas as condições possíveis para aumentar a competitividade, neste caso, do sector das pescas, mas também de todos os outros sectores que contribuem para o desenvolvimento da pesca e da Economia Azul, no geral.

“Há que apostar na diversificação das actividades económicas ligadas às pescas, há que apostar na implementação de maior eficiência, maior eficácia e maior qualidade dos produtos e serviços que são prestados, para que sejamos, efectivamente, competitivos, que é isso o que se quer”, afirma Juvino Vieira.

Instrumentos orientadores 

Neste contexto, a par da “Carta Compromisso a favor do Crescimento Azul” , Cabo Verde já dispõe também da sua Carta da Política das Pescas (onde estão explanados os objectivos, indicadores e as metas que a atingir no horizonte 2018). Dois importantes instrumentos, que na óptica do director-geral dos recursos marinhos de Cabo Verde representam o “engajamento político”, no sentido de se promover, de forma sustentável, o desenvolvimento das áreas ligas à Economia Azul – pescas e transportes, aquacultura, turismo, e energias renováveis, entre outras.

“Temos de envolver fortemente os empresários, as empresas, os operadores económicos que trabalham nas tais áreas que concorrem para o desenvolvimento da Economia Azul, para podermos tirar todo esse proveito e criar as condições para que eles sejam competitivos e para que o país possa crescer e a Economia Azul possa dar um grande salto e contribuir, cada vez mais, para a economia de Cabo Verde”, concluiu.

Gisela Coelho

*in Revista INICIATIVA

 

 

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