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Como custa ser biométrico

O primeiro da fila era um homem acompanhado da mulher com um bebé ao colo. Cedo vi que era emigrante, com alguns anos na Europa. Vinha do Paiol, estava desde às 4 na fila

Geremias S. Furtado

Já a pensar nas minhas férias, decidi, desde já, renovar o meu passaporte, caducado agora em Fevereiro. Numa quinta-feira, 9, foi o dia que escolhi para ir à Direcção de Emigração e Fronteiras (DEF), na Achada de Santo António (na Cidade da Praia), para tratar do assunto. Mas antes, na véspera, por lá passei, no fim do expediente, para saber dos “procedimentos”. A deslocação poderia ter sido evitada, caso a DEF me atendesse o telefone. Tocou, tocou e nada. “NIB, cópia de BI e cinco mil e seiscentos escudos”, informou-me uma atendente. “Mas venha cedo”, sugeriu, em tom de aviso, quando eu já estava a deixar o local.

No dia seguinte, às 7H30, cheguei ao local, achando que estava a seguir à risca a sugestão da tal atendente, tendo em conta que a DEF começa a funcionar às 8. Mal cheguei, verifiquei que afinal o meu “cedo” devia ser mais cedo. “Mas isto aqui todos os dias é assim?”, perguntei ao guarda, ainda do outro lado da rua, ao ver o que me esperava. “Isso não é nada. Há dias em que a fila chega perto do ‘Dragoeiro’”, respondeu o homem, a rir. Fechei o corpo e fui à luta.

O primeiro da fila era um homem acompanhado da mulher com um bebé ao colo. Cedo vi que era emigrante, com alguns anos na Europa. Vinha do Paiol, estava desde as 4 na fila. Ele e a família dormiram dentro do carro, estacionado em frente às instalações da DEF. “Mas porque veio tão cedo?” perguntei. “Vim por brio de corpo”, respondeu. “Se tivesse vindo às 7 horas estaria como você, lá no fim da fila e não conseguiria resolver o meu problema”. Engoli em seco e fui para o fim da fila.

Dos responsáveis pelo serviço, o primeiro a chegar foi o Comandante da DEF, Gilberto Alves. Cumprimentou os presentes com um sonoro “Bom Dia!”, antes de entrar. Ele que, semanas antes, me havia recebido no seu gabinete, como jornalista, a propósito de um assunto, por cuja resposta continuo a aguardar.

A primeira atendente chegou às 7H45. Deu também o seu “Bom Dia!”, agradável, e foi entrando. Dois minutos depois, começou a distribuir as senhas. Coube-me o número 32. Atrás de mim só ficou um jovem, o 33, curiosamente, a idade com que Cristo foi crucificado. Na verdade, disse, ele foi o terceiro a chegar, mas só que no momento em que as senhas foram distribuídas ele estava a dormitar encostado a uma parede. Desalentado, nem queria acreditar que fosse o “33”. “Cheguei aqui às 5 da manhã”, desabafou.

Já com os números distribuídos, as pessoas foram entrando. As 18 cadeiras disponíveis, na sala de espera e atendimento, foram rapidamente ocupadas. Aqueles que não conseguiram tiveram de ficar de pé. Eu, o máximo que consegui, foi um cantinho perto da porta. E esta, feita de alumínio, arranhava o chão sempre que alguém a abria, causando-me irritação nos ouvidos e nos dentes. Pior mesmo, só a mistura de bafos de sono daqueles que madrugaram para poderem ser atendidos a tempo. Aliás, a própria atendente, enquanto atendia o número 1, fez saber que as pessoas com números de 20 para cima “só depois do meio dia”.

“Podem ir resolver os seus problemas e só voltem depois do almoço. Se passar o número atendemos na mesma; estamos aqui para facilitar”, disse, simpática.

“Sendo assim”, comentou alguém, “vou a casa almoçar o congo que vi minha mulher a pôr na água ontem”. O fulano, esclareceu, era de Belém, Cidade Velha. Este, dei comigo a pensar, tem jeito para o humor.

Enquanto uns aproveitavam o aviso para ir cuidar de outros afazeres, outros iam chegando. Entre estes estava uma senhora que foi directamente para o balcão de atendimento. Queria saber o tempo que leva para ter um passaporte. “São 45 dias. Agora estamos a fazer somente o electrónico, estamos modernizados. Quem quiser com urgência terá que trazer estes documentos”, respondeu a atendente, apontando para um papel em cima da mesa.

Informada, a tal mulher não quis acreditar. “Credo!”, exclamou. “Se calhar mandam fazer essa ‘coisa’ em Portugal. Não sei porquê tomaram a independência, é tempo txeu dimas”, resmungou ao sair pela porta.

A segunda da fila era a Flávia, 16 anos, cabelo afro, moderna, fincada na “sê raiz”. Ela só não imaginava a dor de cabeça que iria ser tirar o passaporte electrónico com aquele penteado. É que a máquina instalada na DEF não aceita penteados afros. A jovem e a mãe, que a acompanhava, não sabiam disso.

“Moça, vais ter de voltar amanhã ou depois. Com este penteado não aceitamos”, informou a atendente. “Nem pensar, é hoje que ela faz este passaporte”, contrapôs a mãe, ao mesmo tempo que puxava a filha pelo braço para a porta de saída.

Na hora entrava uma outra jovem com um penteado semelhante. Todos na sala começaram a rir. Esta, coitada, olhava para os presentes e não entendia nada.

Quanto à Flávia, já na rua, a mãe levou-a para um canto, sentou-a numa pedra e começou a trançar-lhe um rego, mesmo sem pente. “Essa mania de cabelo afro, só para me gastar o dinheiro em hidratação e produtos na loja brasileira”, reclamava a progenitora. No final, o penteado não ficou grande coisa, mas a jovem, essa, lá conseguiu fazer a foto para o passaporte.

Sobre o passaporte electrónico, ou e-passaporte, como acabei por ficar a saber, recorde-se, o mesmo vem responder às normas internacionais de segurança. Há anos que se vinha falando neles, biométricos, com isto e mais aquilo. Também diz a DEF que o processo de recolha de dados está operacional na grande maioria dos concelhos do país, bem como nas nossas representações diplomáticas no estrangeiro. Mesmo assim, sabe-se lá porquê, os utentes de todos os cantos de Santiago preferem madrugar em frente à sede da DEF, na Praia, para tirar o seu “biométrico”.

Nisto, feitas as minhas contas, decido ir-me embora. Na próxima, apareço por volta das 4 da manhã, ou então dirijo-me à representação da DEF na Assomada, ou, talvez, no Tarrafal. Pode ser que haja menos gente na fila. É preciso “expertize” para lidar com este “sistema” electrónico, do tal passaporte biométrico, que leva 45 dias para ser atribuído. Biométrico ou não, eu só quero um passaporte para poder viajar no dia em que precisar.

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