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Moral e Ética. Algumas precisões

Os grandes lóbis empresariais têm realizado uma enorme campanha propagandista para convencer o público de que as alterações climáticas são uma invenção

Arsénio Firmino*

Refiro-me com frequência à Ética, por me dar conta de que se confunde, bastas vezes, Moral com Ética. Há tempos, um amigo que costuma ler-me, pediu-me que lhe esclarecesse a diferença, o que irei tentar fazer agora com mais precisão, visto haver diferença entre as duas expressões, aproveitando a oportunidade para outras precisões.

A moral (convocando E. Kant) visa a diferença entre o bem e o mal, enquanto ética (recorrendo-me a Espinosa) se interessa a distinguir entre o bom e o mau. De um lado fala-se de dever, de normas incontestáveis a respeitar, por vezes, de santidade e exigências religiosas; do outro lado (ética), do desejo, de reagir bem, de como viver, de comportamentos aceitáveis em função da razão. A moral, imperativa, ordena, a ética, relativa, recomenda.

Já que estou com a mão na massa, iremos abordar falhas graves morais e éticas, sobretudo as que afectam a democracia e beneficiam aqueles que detêm o poder e o dinheiro, suportados pela grande maioria dos cidadãos prejudicados que os vão tolerando pagando as suas asnidades.

Comecemos com exemplos de algo recente, altamente preocupante, publicado no jornal D. Notícias/Janeiro 2017, pelo economista de origem húngara e nacionalidade canadiana, George Soros, empresário, benemérito, investigador financeiro milionário e ecologista: “ A democracia está agora em crise. Até mesmo os EUA, a maior democracia do mundo, elegeram um vigarista e potencial ditador como Presidente. O seu gabinete inclui extremistas incompetentes e generais aposentados.” Este Presidente utilizou na sua campanha eleitoral e continua a fazê-lo, a imensa força do poder mediático que formata opiniões e subverte indelevelmente as democracias. A opinião pública dos deixados por conta e dos votos de protesto dos revoltados e desiludidos contra os políticos, atormentados por falsas promessas e estupidificados por esses meios de comunicação social que até chegam entre nós em Cabo Verde sobretudo através da TV, visto não vislumbrarem líderes com ideias claras que favoreçam o debate.

Os grandes lóbis empresariais, por exemplo, têm realizado uma enorme campanha propagandista para convencer o público de que as alterações climáticas são uma invenção, de que tudo não passa de um embuste, incluindo até a China nessa tramoia. Obviamente, que esses lóbis e grandes empresas multinacionais ligadas ao petróleo, gás e energias fósseis funcionam como empresas mercantis. Quando participamos num sistema mercantil, somos forçados a ignorar aquilo a que os economistas chamam externidades, isto é, o efeito de uma transação sobre terceiros; desde que o comprador e o vendedor estejam satisfeitos com o negócio, o resto não interessa, mesmo sando prejudicial a outros: barulho, poluição, catástrofes, etc. A venda, por exemplo, dos CTT portugueses à Goldman Sachs realizou-se a contento desse super banco de investimento e do Governo de Passos Coelho, mas sabe-se que o facilitador dessa venda nomeado pelo Estado, o ex-secretário de Estado e deputado do PSD, Arnault, que deveria defender os interesses do país, ganhou, após a venda, um bom tacho na Godman Sachs, antecipando-se ao ex-primeiro-ministro Durão Barroso no merecimento às preferências do banco, o que faz presumir ele não ter defendido adequadamente os interesses nacionais. Com esta venda, o Goldman Sachs eliminou alguns postos dos CTT do interior do país (e criou um sistema bancário nos CTT) que não produziam lucro ou davam algum prejuízo – temos aí outro exemplo de externidades -, penalizando, portanto, as populações do interior que se vêem obrigadas a percorrer longas distâncias para receberem as suas pensões, pôr ou receber cartas no correio.

Já falámos bastante de crises financeiras noutros artigos e sabemos que podem ser devastadoras, obrigando os governos a socorrerem os bancos em consequência das suas más gestões, para evitar falências. Em verdade, são os contribuintes que são chamados a salvar as safadezas e erros dos banqueiros, porque o dinheiro do governo provém dos impostos pagos pelos cidadãos: os banqueiros, além de serem principescamente remunerados, roubam ou emprestam dinheiro a amigos sem exigirem garantias de pagamento, e somos nós que temos de repor esses roubos e gestão danosa através de mais impostos.

Porém, não há quem nos resgate de uma crise ambiental (excesso de poluição, subida do nível da água do mar, ciclones destruidores, aumento crescente da temperatura ambiente, chuvas torrenciais avassaladoras alternadas de períodos de seca, etc.). Neste caso, só há que contar com o extermínio da nossa espécie. O MIT (americano) publicou, há cerca de quatro anos, um relatório que descreve aquilo a que apelidaram, em publicações científicas, como o modelo climático mais abrangente alguma vez concebido, cuja conclusão nunca foi publicada fora das revistas de especialidade, o qual dizia, caso não puséssemos fim imediato à utilização dos combustíveis fósseis, tudo estaria acabado. Continua a haver organizações que financiam com fundos anónimos a rejeição pública das alterações climáticas, como o Donors Trust americano, entre outros. Como sabemos, o actual Presidente Trump é da mesma opinião daqueles que dizem não acreditar nos malefícios da poluição sobre o ambiente.

Em Cabo Verde, a população anda um tanto baralhada, desorientada, devido a ideias peregrinas que se pretende impor, incluindo a africanidade exclusiva a todo o pano, levando a maioria a contestar algumas ideias e direitos universais dos cidadãos, valorizando as suas circunstâncias étnicas, geográficas e sociais. Como também alguns líderes abandonaram a capacidade de aceitar a nossa tradicional identidade nacional, entidade ainda hoje vigorosa e reduto de referências pessoais e culturais, pretendem que o resto da população faça o mesmo. Aí pergunta-se, onde estará a ética desses líderes de opinião? Estou em crer que tem razão o Eng. Armindo Ferreira, no seu último artigo, ao presumir haver nos nossos líderes políticos, um défice de cultura geral, – acrescento eu – agravado com uma arrogância mórbida de não atender a sugestões e propostas de patrícios com essa cultura e saber de experiência feito.

Infelizmente, a maioria dos países de referência é governada por líderes sem nenhum carisma e por oligarcas ignorantes, que não governam em função do interesse público, mas do seu interesse pessoal, familiar e partidário, subordinados ao poder financeiro. Para eles, não há moral nem ética.

Parede (Portugal), Fevereiro de 2017                                                        

*Pediatra e sócio-honorário da Adeco

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