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Esta língua que percebem mas preferem desentender

Todos os meses nós mandávamos muitas mantenhas e mais mantenhas através dos nossos conterrâneos que para lá fossem desterrados de Portugal e de vários outros pontos do Império

José Gabriel Mariano

Depois de Portugal entregar todas as colónias ultramarinas aos respetivos e legítimos povos, o responsável português vira-se para o amigo americano e diz:

 -Voltámos ao ponto de partida. Andámos a nossa História toda a fugir de alguém e a combater alguém. Primeiro, foram os castelhanos e os árabes. Depois, no Brasil foram apenas castelhanos; com esses resolveu-se bem. Veja o tamanhão daquela terra, sem guerras intestinas, e os outros parecem abelhinhas à volta do cacho. A Oriente é que foram elas, meu amigo americano. Foram árabes, holandeses, franceses, dinamarqueses e os eternos aliados, cavalheiros e sempre bem-educados ingleses que foram a nossa ruína imperial. Está a ver meu amigo, fugimos de todo o lado e não encontramos lado algum em que não estivesse nenhum daqueles ingredientes civilizacionais.

O representante de Portugal susta a respiração e o pensamento e reflete, falando alto:

-Pois é! Agora que devolvemos tudo a seu dono, vejo que restou e existe um sítio no nosso Extinto Glorioso Império que não consta alguma daquelas gentes e sabe qual é, my dear friend?

O representante calou-se uns brevíssimos momentos, elevou um tantinho de alegria a voz e disse arregalando os olhos:

-As Ilhas de Kauberde, mas agora têm lá Kauberdianos – menos Santa Luzia, mas olhe…um bom sítio para… – que falam a língua daqueles eruditos e bem formados indo-malaio-portugueses que se disseminaram pelo Império – que bateram o pé a Portugal com a revolta dos Pintos em Goa, em 1787, exigindo a independência, misturando-se eles cada vez mais com outras origens étnicas que não sabemos se são ou não de origem indiana, portuguesa, africana ou chinesa; olhe, temos o Costa futuro 1º de Portugal; temos o Pinto de Souza, julgo, ex. 1º de Portugal, professores de Direito, gente simples e desconhecida, tantos, tantos outros casos – e daquelas pessoas que vieram forçadas de África e que se revoltavam de vez em quando em S. Tiago contra nós. É tudo gente muito especial, acredite!

Pausou novamente o representante e continuou:

-É assim, meu caro amigo americano, tínhamos o ouro à nossa frente e não o vimos; tivemos que voltar para casa com as mãos a abanar e apanhar com a antiga vizinhança do costume: esses castelhanos chatos e que falam alto e que acham que Portugal é a sua quinta e aqueles sarracenos lá perto dos reinos dos Algarves que parece que querem tomar a Península Ibérica outra vez. Olhe, talvez seja melhor termos uma conversinha de pé de orelha com os nossos amigos kauberdianos, e também família, sabe? Sim, família! – Afirmou enfaticamente o representante – Os kauberdianos até têm nomes de famílias[1] antigas portuguesas e até já usam o K[2], como nós no tempo da monarquia. Temos ligações muito antigas, sabe. Quando passavam fome nem sabe como nós aqui na metrópole sofríamos por eles e até rezávamos às suas almas. Todos os meses nós mandávamos muitas mantenhas e mais mantenhas através dos nossos conterrâneos que para lá fossem desterrados de Portugal e de vários outros pontos do Império. Sabe, caso seja preciso fazer o que se fez em 1810: fugir dos franceses!

Parou o seu monólogo, encheu o ar de peito, fixou o olhar no seu american friend e diz pausadamente:

-É preciso acautelar o tempo a retaguarda! Sabe é que na História recente nem Portugal tem sido seguro! Também não são dez mil milhões de almas que vão estragar Kauberde, não acha? Será que Kauberde é seguro, caso seja necessário fugir de alguém?

Suspirou e disse:

Sabe, amigo americano, quem, como eu, não é nem nunca foi Kauberdiano – logo não sente nem percebe a Kauberdianidade -, julga que para o ser é usar Kapas uns atrás dos outros, dar uns Ú-rros e assumir-se africano da boca para fora, quando nem sequer sabe o que é ser africano e nem o sente, até na língua. Querer ser mais papista que o Papa, sabe o que quero dizer? Entende-me perfeitamente, não é? O senhor até que é negro nascido nos Estados Unidos da América.

Notas:

[1] Mas uns pensam que vem de uma língua africana que dizem ter, mas que nunca ouvi…

[2] Por exemplo, meu amigo americano: a palavra, nome Carlos – dizem-nos os uns -, em língua africana de Kauberde, diz-se Kálús. É a tendência natural africana para suprimir os R e acentuar os O profundos do U e abrir os A africanos… justificam os entendidos! E o K porque dá um ar mais afriKano à língua! Demonstra irreverência, revolta, não submissão ao colono branco, assim concluem aqueles uns. E também salienta mais o Q de Kalinada, acrescentam ainda.

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