Home » Opinião » O caráter universal do Crioulo: A Língua leva-nos à Linguagem e à História

O caráter universal do Crioulo: A Língua leva-nos à Linguagem e à História

O Crioulo, antes de língua, é linguagem, é cultura. Como linguagem devemos entendê-lo e estudá-lo.

José Gabriel Mariano

O caráter universal do Crioulo, como a própria expressão implica, transcende os limites físicos, geográficos e culturais de Cabverd e do cauberdiano.

Monsenhor Sebastião Dalgado, Baltasar Lopes da Silva e Jorge Morbey – é meu seguro entendimento, ressalvando outra mais douta e sábia opinião -, são três espíritos, três épocas históricas distintas, assumem publicamente, pública e “publicadamente”, o caráter universal do Crioulo. O último, Jorge Morbey – pensador e estudioso cauberdiano – foi antigo presidente do Instituto Cultural de Macau, conselheiro cultural das embaixadas de Portugal em Pequim (China, RPC) e Banguecoque (Tailândia), lecionando atualmente na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, com trabalho de investigação dedicado e consagrado ao Crioulo/crioulos, à História de Macau, à História da China e da Ásia, foi sempre renegado e ignorado pelas antigas, históricas e belicistas autoridades de Cabo Verde, o PAICV.

Que me perdoem os visados que não os ora identificados!

Mas trabalhar a língua sem conhecê-la – sem saber quem, como é, porque é –, é como em placa quadrada de gelo, coberta por película de óleo de azeite, patinar. E aqui peca-se, “ab initio”, por querer estudar o (s) crioulo (s) falado (s) em Cauberde/Cabverd/Cauverd/Cabverde, sem sequer olhar e estudar o Crioulo.

O Crioulo, antes de língua, é linguagem, é cultura. Como linguagem devemos entendê-lo e estudá-lo.

Ao entender e pensar o Crioulo como linguagem – antes de o ser, já somos -, veremos, constataremos que o aparente conflito linguístico – exacerbado a níveis do ininteligível que grassa dentre alguns influentes cabo-verdianos, promovendo, com isso, a discriminação, a separação, o divisionismo, a zanga inconsequente, e mesmo o ostracismo dentro das sociedades/comunidades “marina” e ultramarina cauberdianas – esfumar-se-á; tornar-se-á mais suave e concordante o tal conflito linguístico.

Nós, os de Cabverd/Cauberde, somos ricos na e em linguagem, sendo que esta riqueza reflete-se numa das formas e modos de linguagem que é a forma e o modo oral de comunicar. Somos ricos na língua, riquíssimos, porque a nossa língua oferece as mais variadas possibilidades de comunicar oralmente e, claro, graficamente, por símbolos escritos.

Em vez de guerrear (ma ka ê camaron na guerra), devemos apaziguar, unir – o cancro afeta todos os cauberdianos -,reunir, comungar, partilhar sem pressa, sem anseios e sem atropelos! Perceber, estudar o Crioulo como linguagem e como língua é fundamental a Cabverd. Não há Benfica/Sporting, PAICV X Mpd, Norte – Sul, badiu ou sampadjudo. A questão é Nacional, é histórica e filosófica. É linguagem, cultura e língua. É de todos e a todos incumbe o dever de trabalhar.

É uma missão que cabe e incumbe, logo à cabeça, por maioria de razão: Cabo Verde (o Estado que tem como língua oficial o Crioulo), Portugal, Timor, Moçambique, Goa (Índia), Macau (China, RPC) e todos os países/estados e comunidades falantes da língua portuguesa. De todos aqueles que comungam e partilham o nosso espírito genuíno e comum, moral e ético.

O Cauberdiano – a criança, o jovem, o velho, o antigo – redescobriu que a sua língua tem uma origem, que está identificada. Esta origem é asiática, como já demonstrada e comprovada ao aborrecimento.

Constata-se, hoje, que o Crioulo é falado e escrito em várias zonas da Ásia: Korlai (Índia), Malaca e Ceylão (Sri Lanka), Goa, Damão e Diu. Há notícias a surgir sobre o crioulo de Singapura.

Devemos nunca esquecer, e sempre ter presente, que o Crioulo foi, de facto e historicamente, linguagem da Ásia, até finais do século XIX. Foi uma realidade de facto e com impacto internacional; e por esta causa produziu efeitos de forte expansão cultural e linguística, difusão e propagação, ultrapassando muito além as imaginadas fronteiras políticas, administrativas e jurídicas de Portugal na Ásia, bem como propagou-se por todo o espaço ultramarino português, historicamente conhecido por “O Império de Portugal”.

O Crioulo, como linguagem, imperou! Deixou raízes e sementes!

O estudo da nossa língua deve ser, por isso, humilde, imbuído de muita humildade. Ter como início e foco fundamental – uma vez que é na “Roma do Oriente” que surge e irradia pelo mundo a linguagem crioula – a Ásia.

Por isso, considero que, por enquanto, é perder tempo e dinheiro – já se perdeu muito, com certeza: muitos tempos! É prematuro andar-se em discussões formais, quando, ainda, não aprofundou-se a essência, o fundamento do Crioulo.

A construção, formação e a escultura da nossa Emisferianidade não se compraz com atitudes e comportamentos ligeiros, não permite, menos tolera, comportamentos de mera retórica superficial e muitas vezes desonesta. Comportamentos pouco idóneos cientificamente; clara, profunda e profusamente repudiados moralmente.

A todos nós, os da Emisferianidade, incumbe o dever de esculpirmos com arte a nossa comunidade Emisferiana.

Defino emisferianidade como: o espírito genuíno e comum, do património moral e ético, da diversa e múltipla realidade cultural, social, religiosa e linguística, de crenças e tradições, usos e costumes, integrada e refletida na multisociabilidade intercultural e social, dos povos e gentes falantes da língua portuguesa.

Poupadamente: é o espírito genuíno e comum, moral e ético, dos povos e gentes falantes da língua portuguesa.

Mais poupadamente: é o espírito genuíno e comum dos povos e gentes falantes da língua portuguesa.

Emisferianidade é uma procura incessante. É caminho a caminhar, pausadamente construindo!

Todavia, pergunto: a ideia de emisferianidade responde satisfatoriamente à nossa diversa e múltipla realidade, abarcando-a, abrangendo-a?

Respondo, terminando, com um escrito de Raphael d´Andrade:

universo de reflexão

os títulos são importantes?

não! não são importantes!

são meros elementos identificadores

de um pequeno universo de reflexão

muito pequeno universo

neste imenso tamanho mundo sedento de identificação

os títulos não representam o conteúdo

o título não é conteúdo

é elemento identificador retirado do conteúdo

daqui largava-me ao caminho veloz e retilíneo

em espaço maior de horizontes largos e despidos

pululantes de leve brisa fresca num azul anil colorido do céu.

(Excertos retirados do meu trabalho “Caminhando a Emisferianidade”, com o qual participei no concurso Professor Eduardo Lourenço, edição 2015)

II

A linguagem crioula está intrínseca, pertinente e intimamente ligada ao surgimento da nossa Emisferianidade (Goa, 3 de setembro de 1581). Por esta razão, é minha convicção, incumbe ao Estado e ao Governo de Cabo Verde liderar a questão do caráter universal do Crioulo: da sua linguagem, da sua língua, suas nuances e variantes.

Temos um caminho nobre e digno a percorrer e a realizar; temos o dever mundial e universal, com a nossa Morabeza, a cumprir e a ocupar na História da Humanidade. É nosso direito e nosso dever caminhar em busca da verdade, abandonando, de vez, a mentira instalada!

Não sei se é ridículo, espantoso ou fantástico que a investigação mais relevante e importante que tenho vindo a conhecer e a revelar-se em público sobre o Crioulo seja através da internet, do facebook, e também nela realizada, sem a mínima participação, intervenção, assumpção de qualquer espécie, opinião formal ou informal do “Estado Kabuberdianú”. Investigação realizada por simples e meros sujeitos particulares que, despidos de complexos de qualquer espécie, partilham, informam – autonomamente, independentemente, democraticamente, em liberdade – objetivamente e abertamente a informação e o conhecimento que vai surgindo.

Também não sei se é ridículo, espantoso ou fantástico o facto de a (s) presente (s) investigação (s) ser (em) quase na totalidade pública e publicada, aberta, transparente, informativa e pronta, como é seu timbre, à discussão pública e em público.

É na Ágora que a discussão deve ser feita, realizada, executada. Só assim há lugar à parição; ao parto da Verdade, trabalhando e realizando a maiêutica.

Partilhar e não guardar ou esconder informação pertinente, e mesmo a impertinente, é importantíssimo e fundamental para a prossecução do trabalho de investigação e de expansão da nossa causa histórica, cultural e linguística sobre Cabverd e sobre a nossa Emisferianidade.

Venham todos aqueles que honesta, séria e cientificamente queiram discutir a questão universal do crioulo e Cauberd como Nação!

A Língua leva-nos à Linguagem e à História.

A História leva-nos à Linguagem e à Língua.

Bam!

Nu bai!

Nô bai!

Vamos!

Que sempre viva o 1º de Dezembro!

Ao 1º dia do mês de Dezembro do anno de 2016.

PartilheTweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Email this to someone

Comentário

Notícias Relacionadas

Classificados