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Opinião

Quem quer esse país em 2016?

O ano 2015 assemelhou-se a uma prova de fogo que todos tivermos de enfrentar, particularmente os que tinham a missão de conduzir o barco. Dir-se-ia que o barco navegou em águas turbulentas, mas que chegou ao seu porto. E que no final, passámos no exame. Nem com distinção nem louvor, mas passámos.

O ano que se esvai não começou fácil, muito menos está a ser fácil o seu término. Os sinais chegaram logo em Janeiro. O Vicente fez-nos temer que estaríamos sob o signo da desgraça, pois ainda recompúnhamo-nos do drama vivido por centenas de pessoas afetadas social, económica e culturalmente pela erupção do vulcão do Fogo. O Vicente não foi apenas um navio que se afundou. Ele levou vidas, destruiu famílias, a maior parte delas até hoje não recomposta deste acidente sem precedentes no nosso país. O Vicente não foi apenas um navio que naufragou. Ao submergir, fez despontar falhas graves do sistema de navegação marítima, das quais ninguém se quis responsabilizar. Vicente serviu para tudo. Foi arma de arremesso político; fez correr muita tinta na imprensa; gerou acesos debates e trocas de acusações protagonizadas pelos partidos com assento parlamentar; ditou um inquérito; andou-se por aqui e por acolá, tudo às expensas do erário público. E depois… depois, nada. A culpa, nesse caso, não morreu solteira, só que ficou mal servida, pois morreu com o capitão do navio que não pôde ser responsabilizado. E é mais um caso como outros tantos. Parece aquela terra onde a culpa, coitada, não havia como conseguir marido. Ensaiou-se casamentos, fez-se tamanha barulheira, acendeu-se holofotes, vieram os convivas, mas ela, a culpa, morreu solteira mesmo…

Depois, tivermos outros testes. Em Julho, a chuva, esperança do cabo-verdiano, não veio. Ansiosamente aguardada, demorou-se, deixando o país com o credo na boca. Mas depois veio com força e pujança para encher as barragens água e fazer com que o país fizesse jus ao nome. Em Julho, chegaram os primeiros sinais de contestação social, com a PJ a entrar em greve e a ameaçar com demissão em bloco. Seguiram-se outros agitados momentos de manifestações e greves, arrastando-se até praticamente ao final do ano. Antes, em março, a classe política recebeu cartão vermelho dos cabo-verdianos que se posicionaram contra a aprovação do novo Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos. E quando parecia que a Sociedade Civil tinha dado sinais de que estava a acordar para as questões que mexem com a vida do país, a manifestação convocada para o 1º de maio deitou por terra a impressão e continuámos a ser essa massa quase indiferente e incapaz de se posicionar, nas ruas contra problemas que assolam o país, nomeadamente a criminalidade e a insegurança, o desemprego, a violência baseada no género, a violência e o abuso contra menores, o sistema de tributação penalizante para empresas e famílias monoparentais, entre outras igualmente serias e merecedoras da nossa contestação.

Para o governo, a acusação de gestão danosa, vergonhosa e promíscua do Fundo do Ambiente, misturado com falta de transparência, desvios e indícios claros de corrupção, feita pelo presidente da Associação Nacional de Municípios de Cabo Verde e envolvendo o ministro do Ambiente foi outro exame de fogo que marca o ano de 2015. Sobre a justeza e legalidade dos montantes transferidos, caberá às instâncias próprias averiguar. O que salta à vista é uma certa promiscuidade entre política e associativismo, nociva ao funcionamento e essência das associações. Não é nem sério nem credível que quem exerça funções políticas e seja fiscalizador do dinheiro publico esteja à frente de associações comunitárias, sob o risco de se acabar com os propósitos para os quais estas foram criadas.

Outro exame difícil chegou com a paralisação das obras do programa Casa para Todos. Sendo um dos maiores programas sociais da governação do PAICV, trouxe, no entanto, sérios problemas ao setor da construção civil nacional, com consequências na própria economia do país. E quando tudo parecia querer serenar, eis que o dossiê TACV emerge com teste complicado e que coloca em causa a própria imagem da empresa e do país já que esta fica suspensa da câmara de pagamentos da Associação Internacional dos Transportes Aéreos. Eu aqui abriria um pequeno parêntesis para enaltecer a postura do presidente do Conselho de Administração que, em recente entrevista á Rádio de Cabo Verde, reconhece que a empresa precisa de um novo modelo de gestão e que talvez já não fará sentido manter uma companhia de bandeira.

Dizia que com todas essas provas, estamos nos aqui firmes e prontos para mais um ano em que acontecem três eleições. Estará muita coisa em jogo e aos partidos políticos pede-se elevação, respeito, maturidade e tolerância. Mas acima de tudo, os que almejam governar este país nos próximos cinco anos terão que estar cientes de que partimos para 2016 com grandes desafios. Partimos como um país que cresce lentamente; que não obstante sinais de ligeira retoma da economia, marcadamente por investimentos no setor do turismo, esta é ainda débil; um país cujo ritmo de crescimento não chega para cumprir com os objetivos de desenvolvimento do país nem para alavancar o setor privado, criar postos de trabalho, reduzir a taxa de desemprego e a pobreza; partimos para 2016 com um PIB que aumentou apenas 0,1% no segundo trimestre e cuja dívida pública atingiu os 114 % do PIB, em razão do agravamento das contas públicas e pela redução das receitas; um país cujos operadores económicos continuam a apontar dificuldades de acesso do crédito e os juros altos como principais obstáculos para o desenvolvimento das suas atividades; um país cuja ministra das Finanças avisa que com o atual modelo de financiamento já não vai funcionar nos próximos anos, pois está esgotado e põe em causa o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Que possamos ter aprendido com tudo que nos aconteceu em 2015. E que lançados que estão os desafios para 2016, se apresentem as melhores propostas. Serão estas as únicas válidas e aceites para nos alcançar a consciência e levar o nosso voto.

Um bom ano a todas e todos.

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