Home » Opinião » Da nossa capacidade de pensar e de dialogar

Da nossa capacidade de pensar e de dialogar

“Pensar incomoda, mas um homem não pode fazer outra coisa senão pensar”, como nos atira o ensaísta e escritor Eduardo Lourenço. Um dos corolários da nossa capacidade de pensar é podermos dialogar, o que leva ao aperfeiçoamento do pensamento. Quando se dialoga não é essencial ter a convicção de estar de posse da verdade absoluta.

Arsénio Fermino de Pina*

“Pensar incomoda, mas um homem não pode fazer outra coisa senão pensar”, como nos atira o ensaísta e escritor Eduardo Lourenço. Um dos corolários da nossa capacidade de pensar é podermos dialogar, o que leva ao aperfeiçoamento do pensamento. Quando se dialoga não é essencial ter a convicção de estar de posse da verdade absoluta. Não, mas é preciso ter uma convicção. São os outros que têm de nos convencer, que têm de abalar a nossa posição, que têm de apresentar argumentos que, pouco a pouco, façam germinar a dúvida no nosso espírito. Obviamente que os argumentos de autoridade na discussão não contam, o que certos governantes e políticos das cúpulas partidárias não entendem, aliás, entendem perfeitamente bem, mas convém-lhes darem-se por desentendidos, para se imporem na falta de argumentos válidos, numa modalidade de hipocrisia, porque o hipócrita sabe, entende o que se lhe diz e acontece, e continua a fazer de conta que não sabe.

Se o chimpanzé, que compartilha 98 a 99% dos genes humanos, não pensa e não fala, portanto, não nos maça obrigando-nos a dar-lhe respostas, é porque não tem nada para nos dizer, ou, como dizia Buffon, os outros animais são desprovidos de linguagem por não terem ideias. A capacidade de linguagem gestual do chimpanzé não lhe confere capacidade de criar palavras ou conceitos existentes no 1 a 2% dos genes que lhe faltam para se equiparar a nós na capacidade de raciocinar, pensar e dialogar. Os outros animais não têm, além do mais, a noção do tempo, vivendo simplesmente o presente.

A sociedade humana distingue-se da outra sociedade animal por ela ser fundada na linguagem, no sentimento, nas produções culturais, nos símbolos e mitos. Para avaliarmos a importância da linguagem, diremos que os primeiros humanos após a linguagem verbal, portanto, da fala se ter estabelecido como meio de comunicação há dezenas a centenas de milhares de anos, cujo cérebro estava dotado de muitas capacidades que encontramos nos humanos actuais, que procuravam, em grande medida, o mesmo que procuramos hoje – alimentos, sexo, abrigo, segurança, conforto, um certo grau de dignidade, talvez mesmo a transcendência -, experimentavam uma gama de emoções semelhantes às nossas – atracção, repulsa, receio, alegria, tristeza e raiva; presentes também a sociabilidade, a confiança, vergonha, culpa, compaixão, desprezo, orgulho, respeito e admiração. A curiosidade desses humanos primitivos manifestava-se tanto em relação ao meio ambiente que os rodeava como aos outros seres vivos.

Compara-se por vezes o computador ao cérebro humano e até se fala da inteligência artificial, quando o homem se comporta mecanicamente como um computador. Todavia, o computador, por mais sofisticado que seja, não pode ir além do seu programa, quando o cérebro utiliza muitos programas simultaneamente, e é incapaz de responsabilidade e de intencionalidade.

As emoções desempenham um papel importante na própria racionalidade e não a atrapalham, como se julgou durante muito tempo, fazem parte intrínseca dela. Citando o neurocientista Prof. António Damásio, diremos que as emoções fazem parte integrante da razão; a percepção das emoções está na base do que, no ser humano, se apelida de alma ou espírito. Nos lobos frontais e temporais há zonas ligadas à empatia, ao raciocínio ou julgamento moral e ao controlo das emoções. Nos psicopatas, por exemplo, essas zonas de controlo têm actividade muito diminuída ou nula, e nas crianças e adolescentes (até aos 20 a 25 anos de idade) ainda estão imaturas, razão por que cometem temeridades (nos jovens) ou crimes (nos psicopatas) sem terem a percepção disso.

No domínio da biologia genética e da neurociência, parece que o que define uma realidade – viva ou inerte – não é a substância (ADN) que a constitui, mas o código ou a informação que preside à sua formação. A especificidade do gene não é o seu aspecto substancial, isto é, a sua constituição proteica nucleotídica, mas a mensagem que é capaz de transmitir.

Estes factos – os engramas e a descoberta do suporte físico-químico da hereditariedade, o ADN – levam alguns a pôr de novo a questão da finalidade, dado que as noções de programa e de código genético levam a pensar que teria havido como que um projecto contido nas macromoléculas das células. Cá estou eu às voltas com assuntos metafísicos que sempre me intrigaram, mas sem me convencerem a aceitar a ideia de um ser superior transcendente a criar o universo. Volta e meia regresso a eles, o que, como me assinalou em tempos o amigo Padre Fidalgo Barros, já é bom sinal, de esperança, embora esteja mais próximo de Espinosa para quem as religiões não são verdadeiras, mas antes mitos que preservam, em forma simbólica ou metafórica, verdades úteis que, de outro modo, poderiam perder-se e o grosso da espécie humana nunca conseguirá passar sem elas.

Segundo o filósofo e psicanalista grego Cornélius Castoriadis, de quem já falei noutro escrito, uma sociedade manifesta o seu grau de civilização na sua capacidade de fixar limites e projectos. Que se trate de economia, de política ou de neurociência, trata-se o homem em função da ideia que fazemos dele, como tentámos explicar em artigos com o título de o princípio da humanidade, uma característica do ser humano pensante, não psicopata nem padecendo de algum distúrbio da esfera mental. Descartes fazia depender a existência humana ao facto de pensar, no seu famoso cogito ergo sum (penso, portanto, existo).

(Pediatra e sócio hopnorário da Adeco)

PartilheTweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Email this to someone

Comentário

Publicidade